Segunda-feira, Novembro 16, 2009

Uma questão de higiene


[3481]

Às vezes colho a impressão que alguns (muitos) dos políticos a quem estão entregues as rédeas de sectores fundamentais da vida do meu país, mais do que acatarem caninamente tudo o que emana do partido a que pertencem, são genuinamente abstrusos e sem a noção do mínimo de decência exigível para o desempenho de funções públicas. Assim é, por exemplo, quando um ministro da economia, um responsável por uma pasta delicada e vital para o país, acha que a utilização de escutas na investigação de corrupção envolvendo dinheiros públicos (de todos nós) e manipulação de sectores vitais como a comunicação social se inserem num plano de espionagem política. Mesmo quando os próprios órgãos de comunicação social noticiam coisas tão graves como recebimento de dinheiros a troco de influências ou revelam que um primeiro-ministro mente, sem pudor, aos portugueses. Ou sobretudo por isso.

Também vai sendo tempo de acabar com a ideia que Sócrates andou a ser escutado. O primeiro-ministro bem se esforça por passar essa mensagem, mas é falso. Ou uma inverdade, para usar a sua própria terminologia. Quem andou a ser escutado foi Armando vara. Que Vara se entretenha depois a falar com Sócrates em assuntos pouco aconselháveis pela decência exigível aos nossos governantes é que é já outra história.

Tudo isto começa, já, a ser uma questão de higiene pública. Diria mesmo que a passar das marcas…
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A face pouco oculta dos portugueses ( 2 )


[3480]

Nem de propósito, a TVI no seu programa noticioso da manhã, já me deu dose dupla de Mário Soares muito enfadado, classificando o processo «Face Oculta» como um «problema comezinho que a comunicação social gosta de extrapolar». O ar seráfico e de mestre-escola com que Mário Soares se vai maçando com estas coisas e pacientemente as vai explicando ao rebanho é um exemplo bem vivo do post anterior. Agora vou ali dizer um palavrão, daqueles bem ajavardados, e depois vou trabalhar.

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A face pouco oculta dos portugueses


[3479]

À míngua de um aparente farto currículo do novo treinador do Sporting, parece que a sua principal carta de recomendação é ter sido alguém que Mourinho já uma vez recomendou. E isto já nos chega. Se Mourinho disse, está bem dito e o homem só pode ser bom. Utilizando léxico adequado, esta «postura» e «atitude» são muito portuguesas e sempre fizeram escola. De resto isso passa-se muito noutros «relvados», como a política. Só isso poderá explicar, por exemplo, a frequência das crónicas em jornais e programas em televisão de Mário Soares e de outras individualidades, cotejadas pela comunicação social como postulados que nos são tão necessários como a saga dos descobrimentos. Para sobrevivermos no fado que Deus nos deu de fado. E a menos que mudemos de «sistema» rapidamente, seremos assim, porque é assim que sabemos ser, porque assim gostamos que seja. De vez em quando mete-se um libero ao barulho, um lateral que sobe mais pelos flancos ou um ponta de lança com jogo aéreo. Daí a incensarmos o obreiro da mudança vai um passinho. Mas pouco depois, passa o passinho e tudo volta à mesma.
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Domingo, Novembro 15, 2009

Limites de beleza


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Juliette Binoche é uma daquelas mulheres que deviam ter limites de beleza. Um dispositivo que não permitisse que elas fossem mais bonitas do que deve ser, à semelhança daqueles carros alemães com limitadores de velocidade. O carro vai saltar para os 300 km/h? Corta! Ai a Binoche não lhe chegavam os olhos cor de avelã, ainda tinha que ter uma boca cinzelada em modelo de cereja? Pára o barco e bota-lhe uma verruga no nariz, um pescoço com gelhas precoces ou pestanas curtas. Porque não é justo. Falar com esta mulher, assim, a sangue-frio, deve provocar tropeção no tapete, frases tartamudeadas ou dislexia pura, tipo mexer o café com a colher fora da chávena.

Deus devia usar a lei das compensações com mais parcimónia nas belas e magnanimidade nas não tão belas assim. Ficava toda a gente satisfeita e nunca haveria o risco de entrar no quarto atirar com o cigarro para cima da cama e lançarmo-nos pela janela fora. Distracções a que todos estamos sujeitos.

De qualquer maneira aqui fica um hino à beleza da mulher para se começar mais uma semana de trabalho. Mesmo que arriscando alguma quebra de produtividade.

Foto picada à papoila

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Direito à indignação

[3479]

Usam e abusam do poder como se fosse
direito próprio que algum deus lhes trouxe,
num jogo absurdo que se joga à margem
de regras, normas, ordens e preceitos.
E, porque tudo é seu, eis que a paisagem
se amolda aos seus caprichos e defeitos
e as leis ganham contornos e alçapões
que os poupam a quaisquer complicações.

O direito à indignação do Torquato da Luz
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Angola aos pedaços ( 2 )


[3477]

Este foi o meu segundo carro. O primeiro, como mandava a cartilha da época, tinha sido um feroz Mini, com 848 c.c. que o impulsionavam para uns fantásticos 140 km/h, se não fosse muito a subir, apesar de isso ser infinitamente «cagajessimal» perante o prazer de conduzir uma máquina daquelas.

Mas voltando ao meu segundo carro, um Autobianchi Primula 1200, uma variante pretensiosa da Fiat que resolveu aumentar as vendas com um produto razoavelmente dissemelhante. Este carro tinha 65 cavalos, era ruidoso e desconfortável mas suficientemente nervoso para bombear o sangue necessário às guelras de um condutor recém saído da adolescência. E tinha a característica de ser novo. Era o meu segundo carro, mas foi o meu primeiro novo. Daí que os primeiros quinze dias de vida do Prímula foram um regalo de fiabilidade. Só possível num carro novo e que se tornava ainda mais apreciada porque eu vinha de um carro que dia sim, dia não me obrigava a dar umas pancadinhas na bomba de combustível, para continuar a andar. Só que esses quinze dias foram só quinze porque fui uma vez fui interrompido à hora do almoço pelo dono de uma estação de serviço vizinha para me avisar que o senhor Freire (os portugueses, mesmo em África, sempre acharam que nos conhecemos todos uns aos outros pelo que eu deveria, supostamente, conhecer o Sr. Freire!!!) «tinha-le faltado os trabões e tinha esbarrado» contra o meu, que estava a ser paulatinamente sujeito a uma lavagem.

Um mês mais tarde, carro arranjado e pintado às custas do senhor Freire (um fotógrafo), meto-me à estrada em caravana com o meu pai para uma viagem de cerca de 200 km. Para quem conheça, quando se saia do asfalto ali pela Caconda e se tomava a estrada para a Chicuma, não asfaltada, até à Ganda, entrava-se numa estrada boa, mas perigosa. Trocado por miúdos, bom piso, mas escorregadio, uma espécie de saibro moído. Vale isto para dizer que sem saber bem como nem porquê, dei por mim fora da estrada com o Prímula com as quatro rodas no ar, após uma série de «reviangas» na tentativa de não sair da estrada.

Dentro do carro e sentado no tejadilho, virtualmente de pernas para o ar, via a gasolina a escorrer para o habitáculo, ao mesmo tempo que me lembrava dos filmes americanos, em que os carros explodiam por dá cá aquela palha. Estranhamente senti-me calmo, talvez pensando que os americanos eram uns exagerados, embora fosse aconselhável eu tentar sair daquela situação. Foi o que fiz. Movimentando-me com custo, consegui abrir uma das janelas traseiras (as da frente estavam bloqueadas) e saltar cá para fora. Meia hora mais tarde, o meu pai, que naturalmente dera pela minha falta, voltou para trás e apanhou-me. Olhámos para o carro e o carro ali ficou. Sem explodir, o que mais cimentou a ideia de que os americanos eram uns exagerados. Uma semana mais tarde, duas professoras de Sá da Bandeira, na mesma estrada, tiveram um acidente semelhante ao meu. Capotaram, o carro incendiou-se e as duas morreram. A partir daí comecei a acreditar um pouco mais nos filmes americanos.

A que propósito vem esta história? Porque se regista hoje um dia qualquer de sinistralidade rodoviária. E eu tive uma série de acidentes. Em todos tive, basicamente, muita sorte. Como neste que acabei de referir, quando estive mais de dez minutos dentro do habitáculo de um carro com um depósito de gasolina a verter gasolina em bica lá para dentro. Ah! E também porque está a chover, estou em casa e a recordação de um acidente de carro é um bom pretexto para «não falar daquele que, à boa maneira de Night Shyamalan, não podemos falar» porque ele zanga-se muito quando passamos as marcas.

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Sábado, Novembro 14, 2009

DN - Uma ternura de jornal


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Eu lembro-me do respeito e até veneração que o Diário de Notícias me infundia em miúdo. Eu ainda mal lia jornais, mas só o cabeçalho bastava para me indicar que estava em face de uma coisa séria, uma coisa de gente graúda, respeitável, e que ainda por cima o meu pai lia com atenção. Das vezes em que me aventurava pelo interior das suas páginas, mais arreigada era a convicção de que aquilo era coisa mesmo à séria e que quando eu fosse grande também queria ler o Diário de Notícias, como o meu pai e outros senhores de fato e gravata que eu costumava ver no autocarro (nesse tempo, as pessoas andavam de fato e gravata nos autocarros).

Hoje, o Diário de Notícias, circunstancialmente, é um jornal que deixei de ler há cerca de dois anos, sob pena de não ganhar para kompensan. E esta capa explica-me bem porquê. Num verdadeiro hino àqueles que se preocupam com o amigo Joaquim e por ele zelam, a capa dedica um generoso espaço ao 64º homem mais poderoso do mundo (na verdade um dos fundadores do pântano em que vivemos e que abandonou o navio como os ratos inteligentes). Depois, a notícia de que os ingleses arquivaram Freeport. Qualquer coisa ao estilo, «nós não vos dizíamos?» Finalmente o toque de ternura, o cafuné delicado, a noticia que faltava aos portugueses: Sócrates brincava com Dinky Toys, quando era pequenino. Imagine-se. Eu era mais Corgi Toys, o que me faz pensar que passei ao lado de uma grande carreira. Tivesse eu brincado com a Dinky em vez da Corgi e, provavelmente, outro galo cantaria. Ainda por cima abastardei a coisa porque cheguei a uma altura que até com os Matchbox brincava, o que mostrava bem como eu era uma criança volúvel e sem potencial sentido de Estado. Não me apercebi que a Dinky era para os predestinados.
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Sporting: um clube de elites?


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As coisas andam mal. 8º lugar no campeonato, uma equipa a arrastar-se pelos relvados, um presidente que já não sabe bem o que diz, mistura caucasianos com visigodos (alguém que pergunte ao presidente se ele não queria dizer suevos) mouros e terrorismo a soldo de alguém que ele sabe, o fracasso na primeira abordagem feita a um treinador e a contratação de um director de futebol que resolve as coisas a murro parecem-me um cartão de vista pouco recomendável para que o Sporting retome o lugar que lhe pertence. Se não nos resultados desportivos, pelo menos no domínio da ética e da elegância.
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Aviso à navegação


[3474]


Villas boas que se cuide. Que Sá Pinto, quando se irrita, desata ao estalo. Artur Jorge deve lembrar-se.

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Sexta-feira, Novembro 13, 2009

E a marquise de Cavaco? Lembram-se?


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Aí temos Sócrates novamente a espernear e a achar que tem o mundo mancomunado para o insultar e denegrir. Há longo tempo que este homem não faz outra coisa que não seja isso mesmo. Desmentir, vitimizar-se e acusar este mundo e o outro da série infindável de tropelias que lhe atribuem.

O que Sócrates ainda não percebeu é que mais que saber se ele é culpado ou inocente o que realmente se está a tomar impossível de suportar é esta omnipresença da criatura em tudo o que cheire mal. São já coisas a mais para que este homem não se esteja a tornar num verdadeiro pesadelo para uns (muitos) e num tremendo incómodo para outros (desconfio que muitos, também). Sócrates também ainda não percebeu que poderia acabar com toda esta bandalheira com uma breve comunicação. Dois minutos chegariam para ele clarificar tudo. A menos que «tudo» não seja clarificável e ele não o possa fazer. Vá-se lá saber.

Paralelamente, as vozes e os argumentos dos defensores de Sócrates começam também a tornar-se patéticos e a contribuir, quiçá deliberadamente, para ensarilhar mais as linhas. De tal maneira que dificilmente se pescará algum peixe.

Nota: Hoje lembrei-me do escândalo que foi quando Cavaco Silva mandou pôr uns azulejos na sua casa do Possolo. Ou fechar uma marquise. Já nem me lembro bem. Mas faltava uma licença camarária, um papel, faltava qualquer coisa. E toda a gente se irou imenso com a tremenda contravenção cavaquista. Ou, ainda, quando Carrilho gastou umas massas a arranjar a casa de banho do seu ministério. Caiu o Carmo. Eram tempos felizes…

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Quarta-feira, Novembro 11, 2009

Ralé política

[3472]

Entre o atabalhoamento de Noronha Nascimento e a truculência insuportável de Marinho e Pinto, passando pela pose comovente de Pinto Monteiro, na qual ele parece que não sabe onde há-de pôr as mãos, há um pormenor que me parece óbvio. Pode haver uma montanha de legislação sobre o facto de as principais figuras do Estado só poderem ser escutadas mediante autorização do Supremo Tribunal de Justiça. O que acontece é que no caso de Sócrates não podia haver essa autorização, pela simples razão de que não era ele o escutado. O facto de um dos escutados (Vara) ter falado com Sócrates está para além dos pruridos da lei. E isso altera tudo. Mesmo que subsistam os condicionamentos legais (e acredito que existam) sobre um assunto tão delicado como este, o que fica são os factos noticiados segundo os quais o primeiro-ministro discutiu assuntos tão críticos como o afastamento de jornalistas incómodos ou de como se poderia ajudar o «amigo Joaquim». Há, assim e claramente, uma responsabilidade política de Sócrates que, se não estivesse convencido de que não podemos passar sem ele, teria, pelo menos, apresentado a sua demissão. Porque é assim que se faz, quando se anda a brincar aos primeiros-ministros e a coisa corre mal, num país que se queria liberto de vez das raízes atávicas em que foi mergulhado pelos sucessivos salvadores da pátria que lhe foram saindo ao caminho.

Uma nota final para a triste figura do bastonário Marinho e Pinto. O homem está possesso, ainda lhe dá três coisas. Armado com a legislação, constituição e outras circunstâncias avulso consegue zangar-se mais agora do que quando defendeu Sócrates no caso Freeport ou atacou os «ladrões do BPN».

Pois, enquanto este país se for mantendo num caso de Benfica/Sporting, quem vai ganhando é o F.C. Porto.
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Carta aberta a J. Sócrates

[3471]

Autor: João Miguel Tavares


Excelentíssimo senhor primeiro-ministro: Sensibilizado com o que tudo indica ser mais uma triste confusão envolvendo o senhor e o seu grande amigo Armando Vara, venho desde já solidarizar-me com a sua pessoa, vítima de uma nova e terrível injustiça. Quererem agora pô-lo numa telenovela - perdoe-me o neologismo - digna do horário nobre da TVI é mais um sintoma do atraso a que chegámos e da falta de atenção das pessoas para as palavras que tão sabiamente proferiu aquando do último congresso do PS:”Em democracia, quem governa é quem o povo escolhe, e não um qualquer director de jornal ou uma qualquer estação de televisão.” O senhor acabou de ser reeleito, o tal director de jornal já se foi embora, a referida estação de televisão mudou de gerência, e mesmo assim continuam a importuná-lo. Que vergonha.Embora no momento em que escrevo estas linhas não sejam ainda claros todos os contornos das suas amigáveis conversas, parece-me desde já evidente que este caso só pode estar baseado num enorme mal-entendido, provocado pelo facto de o senhor ter a infelicidade de estar para as trapalhadas como o pólen para as abelhas - há aí uma química azarada que não se explica. Os meses passam, as legislaturas sucedem-se, os primos revezam-se e o senhor engenheiro continua a ser alvo de campanhas negras, cabalas, urdiduras e toda a espécie de maldades que podem ser orquestradas contra um primeiro-ministro. Nem um mineiro de carvão tem tanto negrume à sua volta. Depois da licenciatura na Independente, depois dos projectos de engenharia da Guarda, depois do apartamento da Rua Braamcamp, depois do processo Cova da Beira, depois do caso Freeport, eis que a “Face Oculta”, essa investigação com nome de bar de alterne, tinha de vir incomodar uma pessoa tão ocupada. Jesus Cristo nas mãos dos romanos foi mais poupado do que o senhor engenheiro tem sido pela joint venture investigação criminal/comunicação social. Uma infâmia.Mas eu não tenho a menor dúvida, senhor engenheiro, de que vossa excelência é uma pessoa tão impoluta como as águas do Tejo, tirando aquela parte onde desagua o Trancão. E não duvido por um momento que aquilo que mais deseja é o bem do Pais. É isso que Portugal teima em não perceber: quando uma pessoa quer o melhor para o País e está simultaneamente convencida de que ela própria é a melhor coisa que o País tem, é natural que haja um certo entusiasmo na resolução de problemas, incluindo um ou outro que possa sair fora da sua alçada. Desde quando o excesso de voluntarismo é pecado? Mas eu estou consigo, caro senhor engenheiro. E, com alguma sorte, o procurador-geral da República também. Atentamente, JMT.


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Terça-feira, Novembro 10, 2009

Bull shit


[3470]

Não sei por que carga de água, ocorre-me aquela deliciosa comédia romântica com a Kate Hudson e Matthew McConaughey, quando ele a leva a conhecer os pais e estão todos a jogar “bull shit”. O jogo consiste basicamente em citar uma carta. Se o adversário acreditar não diz nada. Se não acreditar diz "bull shit" e pede para mostrar a carta.

A subtil diferença é que no filme o "bull shit" tem um impacto lúdico e de cada vez que somos ludibriados desata tudo a rir às gargalhadas. O problema é quando este sentimento de ludíbrio não só não nos faz rir como nos faz sentir perfeitamente idiotas. E nem sequer podemos pedir que nos mostrem a carta.
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Gramática técnica


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Parece que as
escutas ao primeiro-ministro vão ser invalidadas. Tinha que ser um tribunal superior a autorizar, na prática é impossível parar as escutas quando alguém não contemplado com a autorização das escutas fala, porque não há tempo para lhe telefonar e avisá-lo e depois aquele assunto noticiado sobre a Prisa e a TVI não tem nada a ver com o sucateiro e depois está de chuva e berreubéubéu e ponto final. E quem quiser que vá escutar para outra freguesia que não tem nada que andar a desconfiar. Desconfiados, é o que somos todos. Mesmo que tenhamos chegado a um ponto em que se dá um pontapé numa pedra e apareça o sujeito da desconfiança e o predicado seja parecidíssimo com o complemento directo, apesar do complemento circunstancial de modo não pareça ter tanto a ver com o aposto ou continuado.

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Pífio mas teso

[3468]

«Há muitos que dizem com justiça que as revoluções democráticas precursoras do movimento que levou à queda do Muro foram as revoluções ibéricas as revoluções democráticas em Portugal e em Espanha, e eu faço essa leitura histórica»

José Sócrates não quis deixar por mãos alheias o sentimento pífio e marialva que nos caracteriza, desde que as pessoas começaram a ter a mania e a tendência de se esquecerem de nós depois dos descobrimentos. Vai daí, «desarrincou» esta «tirada» onde, de uma cajadada, mata o coelho da revolução de Abril em Portugal, apesar da resistência heróica daqueles que não permitiram que se desvirtuasse o rumo do 25 de Abril que, entretanto, ia apontando para a instalação do regime vigente em Berlim-Leste, e matou o outro coelho espanhol, qual fosse o de achar que o processo iniciado e materializado por Franco e que apontou para a transição pacífica do regime espanhol e para o regresso do Rei de forma ordenada e na paz do Senhor, tivesse sido uma revolução democrática.

Por estas e por outras é que Reagan, João XXIII, Walesa e Gorbatchov conseguiram contribuir para o derrube do muro. Inspirados pelas revoluções peninsulares. Sobretudo a portuguesa, que eu bem me lembro de uma vizinha a quem os SUV (Soldados Unidos Vencerão) lhe deitaram o muro abaixo para ver se ela tinha armas na capoeira. Fugiram-lhe as galinhas todas e a única coisa que lhe encontraram foi uma caçadeira velhinha com que o neto costumava ir aos tordos que lhe comiam os figos todos numa figueira que ela tinha num quintal ali para os Olivais. Mas foi uma premonição, configurada na imagem comovente do derrube do muro que suportava a capoeira.
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O novo Público


[3467]

Como é do conhecimento geral, o Público sentiu uma necessidade intestina de aliviar o excesso de peso ideológico que lhe tolhia os movimentos e o peristaltismo intelectual da sua redacção. Assim sendo e em linha com o respeito pelo primado da isenção, o editorial não assinado de ontem rezava esta iluminada e isentíssima peça:

“O casamento entre pessoas do mesmo sexo é um direito que deve ser reconhecido por uma sociedade que defende a igualdade e rejeita a discriminação. É um passo em frente num país que progressivamente se liberta de preconceitos e evolui no sentido da tolerância. Não existe entre nós um consenso sobre a questão, como é sabido. Mas é importante que o debate seja elevado. E que decorra no local adequado, que é o Parlamento e não o referendo. Foi um tema da campanha eleitoral e é aos deputados que compete legislar.”

Fiquei comovido. Ao deplorável excesso de peso ideológico sucede-se agora a «barbaridade» aplicação da sua prometida isenção.

Via Cachimbo de Magritte

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Segunda-feira, Novembro 09, 2009

Falando de saudade

[3466]

Porque me apeteceu.

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Alguém que lhe explique


[3465]

Alguém explique ao Pedro Sales que os muros que ele cita aqui são muros destinados a conter gente de fora para dentro. O Muro de Berlim, ao contrário e ao contrário do que a propaganda socialista dizia, destinava-se a conter gente de dentro para fora.

Não que este pormenor acrescente algum capital de simpatia pelos muros, mas há diferenças substanciais que não podem ser escamoteadas. E é profundamente irritante que a esquerda moderna faça bandeira das bandeiras dos outros, em nome da retórica habitual das liberdades e das igualdades. Com que ela, a esquerda, aliás, convive mal. Tão mal que só comecei a ouvi-la depois do muro (o de Berlim) cair.

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Os zelotas da paróquia


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Pacheco Pereira censurado por um zeloso editor de política do Expresso em 1978. Ainda o muro estava bem de pé…


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Campanhas brancas


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Dantes eram as campanhas negras. Agora, ou muito me engano, ou há por aí uma série de campanhas brancas. Desde as atitudes dignas de quem se demite, repetidas à exaustão pela comunicação social, até às reportagens televisivas a patrícios de arguidos, que consensualmente acham que eram pessoas muito boas e que quem diria

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4 meses?

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A verdade é que pode haver um milhão de razões técnicas para o PGR manter as escutas das conversas entre Sócrates e Vara. Aceito que sim, que estas coisas da justiça têm desígnios tortuosos. Mas a verdade é que agora que sabe que elas existem, Pinto Monteiro deve esclarecer os portugueses (e as portuguesas, para usar o bom léxico socialista) o que se passa. Para que a suspeita (que já existe) não atinja dimensões incontroláveis.

Ler aqui. E aqui. Vale a pena ler tudo.

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Pudessem eles...


[3461]

O muro de Berlim era o que a maioria das pessoas sabe. Ainda que muitas dessas pessoas, por mais novas, tenham uma imagem algo distorcida da realidade e outras se tenham rápida e convenientemente travestido de esquerda moderna perante a impossibilidade de reformar o comunismo (esta do comunismo reformável ouvi ao Daniel Oliveira no Eixo do Mal, quando afirmou que o dia da queda do muro foi o dia mais feliz da vida dele).

Com o muro terá caído um regime, mas não terão caído muitas pessoas que o tornaram possível. Pessoas perfeitas, iluminadas e a quem lhes foi consignado o privilégio de indução de comportamentos para uma sociedade perfeita. É dessas pessoas que eu ainda hoje tenho medo. Porque foram elas que alimentaram o mais cruel e sanguinário dos regimes, não só pela perda trágica de milhões de vidas como pelo estabelecimento de uma sociedade castrada a que nada era permitido senão comer, ver, ler e ouvir exactamente e apenas o que lhes era autorizado. Era, possivelmente, o lado mais trágico do regime que aguardava, guloso, o avanço de gerações já nascidas sob a pata socialista e que nada mais conheciam que não fosse a geometria fixa da sua existência. Dessas pessoas iluminadas, dizia eu, tenho medo ainda hoje. Porque estão despeitadas pela derrota, porque perderam privilégios e porque possuem um ADN incompatível com a liberdade. Porque ainda não perceberam que as pessoas preferem o primado da liberdade e a individualização da vontade, mesmo que para isso tenham de pagar preços tão elevados como a corrupção e as injustiças sociais. Porque podem pelo menos, lutar contra elas. Ao contrário das sociedades comunistas que não podiam lutar por nada, a não ser pelo que lhes mandassem.

Vinte anos depois da queda do muro, sinto uma grande alegria porque as pessoas conseguiram deitá-lo abaixo. Fica-me a saber a pouco, já que há um punhado de gente que merecia um real enxerto de porrada. Mas o tempo passa e os ódios diluem-se. Mesmo por aqueles que ainda hoje acham, que a queda do muro foi uma catástrofe. Desses, pudessem eles, ainda poderíamos vir a ouvir falar. Pudessem eles…

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